A Colisão dos Destinos: o doc sobre Bolsonaro que omite a condenação
Estreou em 14 de maio de 2026 o documentário "A Colisão dos Destinos". Salas quase vazias, fatos históricos ausentes e um contexto político explosivo. Entenda.

A Colisão dos Destinos: o documentário sobre Bolsonaro que estreou com salas quase vazias e omite a condenação
Um documentário sobre a trajetória de Jair Bolsonaro chegou aos cinemas brasileiros em 14 de maio de 2026 — e virou assunto por razões que vão muito além das telas. Baixíssima presença de público, ausência de fatos históricos cruciais e um escândalo paralelo envolvendo outra produção sobre o mesmo personagem: a estreia de A Colisão dos Destinos concentrou muitas histórias ao mesmo tempo.
O que é A Colisão dos Destinos
A Colisão dos Destinos é um documentário sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro, dirigido por Doriel Francisco e produzido pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), com 70 minutos de duração. A obra foi produzida pela Dori Filmes, tendo Mário Frias como produtor executivo — ex-secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro.
A produção promete apresentar uma "versão humanizada" de Bolsonaro por meio de depoimentos do próprio ex-presidente, de seus filhos, irmãos, assessores e aliados políticos como Nikolas Ferreira (PL-MG). Michelle Bolsonaro não aparece entre os entrevistados.
A obra reconstitui a vida de Bolsonaro desde a infância até a chegada ao Palácio do Planalto, optando por depoimentos familiares em vez da estrutura clássica de biografias. A produção também dedica espaço ao atentado sofrido por Bolsonaro durante a campanha de 2018 em Juiz de Fora (MG).
Salas quase vazias na estreia
A recepção nas salas de cinema foi modesta. O documentário estreou em várias regiões do país, incluindo São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e estados nordestinos. A sessão de estreia em Embu das Artes contou com apenas sete pessoas presentes, enquanto outras salas registravam média de cinco a seis ingressos vendidos por sessão.
A Colisão dos Destinos entrou em cartaz em salas de cinema de 17 estados. Apesar disso, o diretor Doriel Francisco revelou que enfrentou dificuldades para conseguir espaços de exibição: "Tive dificuldade com as grandes redes exibidoras, nenhuma delas aceitou exibir o filme". Em São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, não há salas exibindo a produção.
O contraste com as pré-estreias é notável. A pré-estreia de A Colisão dos Destinos ocorreu em 12 de maio, em Pernambuco, e reuniu dezenas de apoiadores de Jair Bolsonaro. Em menos de 12 horas após o anúncio da sessão, os 400 ingressos disponíveis esgotaram. A mobilização prévia de bases bolsonaristas, portanto, não se traduziu em público espontâneo nas sessões regulares pelo país.
O que o documentário omite — e por quê
Este é o ponto mais debatido. O filme percorre a infância, a carreira militar e a chegada de Bolsonaro à Presidência, mas não apresenta referências ao noticiário ou aos principais episódios negativos de sua gestão.
O longa não menciona que a CPI da Covid pediu o indiciamento do ex-presidente por crimes relacionados à condução da crise sanitária entre 2020 e 2021. O longa também não menciona a derrota eleitoral de 2022 nem a condenação sofrida pelo ex-presidente em 2025.
Para entender o recorte temporal, o contexto jurídico é importante: a defesa de Bolsonaro protocolou no Supremo Tribunal Federal um pedido de revisão criminal com o objetivo de anular sua condenação definitiva por golpe de Estado, entre outros delitos. Bolsonaro começou a cumprir a pena em 25 de novembro de 2025, quando foi reconhecido o trânsito em julgado da condenação. Em 24 de março de 2026, teve concedida prisão domiciliar humanitária pelo prazo inicial de 90 dias, enquanto se recupera de um quadro de broncopneumonia.
Aliados do ex-presidente foram diretos sobre o corte narrativo escolhido. Segundo o deputado Sóstenes Cavalcante, o fato de o filme não incluir eventos recentes evita questionamentos legais: "Nada é por acaso. Claro que gostaríamos de um filme mais atualizado, mas, se fosse, poderia ser visto pela legislação como campanha antecipada. Como não tem nenhum anúncio de candidatura indicado por ele [Bolsonaro], não tem a prisão dele, não pode ser visto como eleitoreiro".
Apesar de ter sido finalizado em 2025, o documentário foi adiado após "últimos acontecimentos", período em que Bolsonaro era julgado por tentativa de golpe.
A sombra do escândalo: o filme Dark Horse
A estreia de A Colisão dos Destinos aconteceu num momento de grande turbulência para o universo de produções sobre Bolsonaro. Dark Horse é um futuro filme norte-americano, do gênero drama biográfico, dirigido por Cyrus Nowrasteh e escrito por Mário Frias, com previsão de estreia para 11 de setembro de 2026.
Em 13 de maio de 2026, o Intercept Brasil divulgou que o filme Dark Horse foi financiado com dinheiro pago pelo banqueiro Daniel Vorcaro — ex-proprietário do Banco Master, liquidado por lavagem de dinheiro — a partir de pedidos de Flávio Bolsonaro. Segundo a apuração do Intercept, Vorcaro teria se comprometido a apoiar o filme com R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões foram efetivamente liberados.
Dark Horse será estrelado por Jim Caviezel e contará também com Marcus Ornellas, Sérgio Barreto e Eddy Finlay no elenco. O cronograma de lançamento é visto como estratégico, posicionando o filme como uma peça de forte impacto emocional e político a menos de um mês das eleições presidenciais de 2026.
A Colisão dos Destinos não teria ligação direta com o escândalo envolvendo Dark Horse. Para a produção de A Colisão dos Destinos, o diretor Doriel Francisco diz ter utilizado somente recursos próprios, sendo inclusive obrigado a vender um carro e um terreno.
Cinema político: um gênero em disputa no Brasil
O fenômeno de documentários com viés declarado sobre figuras políticas não é novidade no cinema mundial — nem no Brasil. O que chama atenção em A Colisão dos Destinos é a combinação de baixo alcance de público com alto impacto no debate público: a obra virou pauta mesmo sem encher uma sala.
O diretor Doriel Francisco revelou que a ausência de patrocínio e a resistência de grandes distribuidoras mudaram os rumos do filme, lançado de forma independente. Esse modelo de distribuição pulverizada — apoiada na mobilização orgânica das bases — é cada vez mais comum em produções com forte carga ideológica, e expõe os limites do circuito tradicional de cinema para esse tipo de conteúdo.
Para quem quer entender o fenômeno Bolsonaro pela lente do audiovisual, o cenário de 2026 oferece pelo menos duas perspectivas bem distintas: o documentário intimista de Doriel Francisco, já em cartaz em cinemas independentes, e a cinebiografia hollywoodiana Dark Horse, prevista para setembro — agora envolta em polêmica financeira.
Perguntas frequentes (FAQ)
Onde assistir A Colisão dos Destinos?
A Colisão dos Destinos está em cartaz nos cinemas desde 14 de maio de 2026, em salas de 17 estados. O filme não está disponível em plataformas de streaming até o momento — a distribuição é exclusivamente presencial, em circuito independente. Vale verificar a programação de cinemas locais, pois as grandes redes não exibem a produção.
A Colisão dos Destinos fala sobre a condenação de Bolsonaro?
Não. O longa não menciona a derrota eleitoral de 2022 nem a condenação sofrida pelo ex-presidente em 2025. A narrativa termina na chegada de Bolsonaro à Presidência, sem cobrir os episódios mais recentes e polêmicos de sua trajetória.
Qual a diferença entre A Colisão dos Destinos e Dark Horse?
São produções distintas. A Colisão dos Destinos é um documentário de 70 minutos, dirigido por Doriel Francisco e produzido por Mário Frias, já em cartaz. Dark Horse é uma cinebiografia americana de ficção, dirigida por Cyrus Nowrasteh, prevista para estrear em 11 de setembro de 2026 — e está no centro de uma investigação sobre seu financiamento milionário.
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